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06/04/2008 04:07
Uma gota: o decifrar
Num canto pouco iluminado daquele local nostálgico e deprimente estava um senhor feio e levemente careca, calado e inofensivo, já em seus 80 anos de idade. À mercê.
Para a produção de um trabalho da faculdade, o jovem ali presente, Christian, com o senhor Nelson a sua frente, não hesitou e em sua direção caminhou.
Pouco se falaram, o homem parecia sofrer de alguns males, compreensíveis naquela idade. Ele carregava consigo um bloco de anotações, com algumas imagens em seu interior.
O jovem pediu-lhe permissão para lê-lo, acuado, o velho permitiu. Christian foi embora rapidamente. Preferiu ficar somente com a primeira impressão. Tudo ali era muito diferente da costumeira realidade digital do garoto.
Em sua casa, trancado em seu quarto, Christian deparou-se com as anotações do velho. Estava curioso. No bloco foram encontradas pelo rapaz percepções da vida escritas em desordem pelo velho Nelson.
O estudante temia não conseguir compreender tais escritos, mas o fato era que o medo fazia-se presente exatamente pelo contrário. Uma perturbação era latente, e havia surgido no momento em que ambos se conheceram.
Às vezes esquecemos da razão, de que somos racionais, filosofou pobremente o velho. Qual crime é justificável? Fortuna, sexo, poder. Uma embriaguez do homem. Pensamentos inéditos ocorriam na cabeça do estudante ao se deparar com o decorrer da leitura.
Viu-se de frente a uma busca, uma viagem quase que forçado ao interior de outro alguém. Deus ou a teoria do Big-Bang? Ele não era religioso. Lembrou-se de uma discussão em sala de aula. Onde estaria o porquê, perguntava-se.
Após pouco tempo, as indagações do velho passaram a ser do garoto. Tomou para si as aflições e as angústias de uma vida até então desconhecida. Algo o fazia sentir naquelas palavras dor e ressentimento. Sentiu-se infectado por aquela velhice, por tremendas frustrações. Como se fosse possível... Quem sabe?
O velho nem de longe trazia consigo algo que insinuasse o apelo da vitalidade sexual, mas naquelas folhas estavam alguns de seus pareceres sobre o assunto, seus desejos ainda presentes, memórias de aventuras.
Repugnante e condenável tinha sido a leitura. Uma invasão de privacidade, talvez. Sacana! Refletia o jovem: Mas nessa idade? Mais uma inquietação surge: as acasaladas de Nelson eram em busca do prazer ou uma fuga?
Basta! Chega! dizia o garoto a si mesmo ao se dar conta do tanto de bobeiras que percorriam sua mente. Dias se passaram e naquele lugar o jovem não voltou para devolver ao velho suas anotações. Mandou uma colega, distanciou-se numa atitude covarde.
Tinha entrado numa crise de identidade, uma mistura de remorso e vergonha permeava-lhe. Seriam dois homens em crise ou a descoberta de uma vida incessantemente em crise?
Christian, às vezes tolo e solidamente imaturo, amedrontou-se diante de sua mediocridade, ou até mesmo com as lamúrias de um senhor em processo de aceitação dos ciclos da vida: o nascer, o corromper e o morrer.
O trabalho proposto na faculdade não havia sido feito, nem Nelson serviria como ferramenta de ajuda, sua biografia não era a que o jovem procurava para provar suas habilidades com a escrita.
O estudante não assimilou que fatos cotidianos apresentam riquezas para uma boa história, entretanto, ele sabia que daquele encontro havia absorvido ensinamentos que não seriam certificados por escolas.
Uma nova visão de tempo seria utilizada pelo jovem em sua jornada e tomaria cuidado com as ações de pessoas próximas, que seriam vigiadas. O decepcionar, um legado da amarga experiência do solitário Nelson, um drama que na TV não faria sucesso.
Mesmo com sua sensibilidade tocada, Christian não se tornou alguém melhor, apenas desligou-se de sua realidade momentaneamente. Projetou-se num futuro, algo incerto e incômodo. O garoto viu nesse instante diversos rostos, universos distintos. Embarcou numa viagem insólita para além de sua arredoma, ainda menor que seu ego.
Uma história tão antiga como o próprio tempo, como o próprio sol. Assim como os raios ultravioletas, não vistos naturalmente pelo o olho humano, barreiras criadas são impostas por inúmeros fatores, entre eles as crenças e os instintos, quesitos não tão admiráveis dos seres, delimitados e defectivos.
Cheio de afazeres, Christian prosseguiu com muitas perspectivas. O jovem percebeu que há muito que temer neste mundo. São nossos próprios pensamentos que mais nos assustam. Lembranças do que não nos mata, mas nos fortalece.
Ao velho octogenário: lembranças em fotografias, que eternizam sensações e perpetuam anseios e culpas. A inexistência de cumplicidade, o reencontro com suas anotações. Restava-lhe uma gota!
enviada por Geso Jr
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